No próximo domingo, 19 de julho, o Brasil vai assistir seu maior rival disputar a final da Copa do Mundo 2026.
Uma semana antes, a CBF publicou nas redes sociais um vídeo de pouco mais de um minuto, sete dias depois do Brasil ter sido eliminado.
O vídeo chamou a derrota de "um filme que não queríamos escrever". Prometeu mais estabilidade, mais planejamento e o hexa em 2030.
Duas horas depois o vídeo já tinha mais de 2 milhões de views e 11 mil comentários. A maioria não falava sobre o time, mas sobre os problemas que o vídeo tentou mascarar.
A CBF achou que podia contornar a eliminação contando uma boa história e que isso resolveria a insatisfação do torcedor.
Esperavam uma reação e a reação veio. A torcida lembrou que esse mesmo discurso já foi usado depois da eliminação em 2022. Hoje, quatro anos depois, é a mesma cartilha, e a paciência se esgotou.
Algumas das frases que repercutiram foram:
"Vocês falaram a mesma coisa depois de 2022..." "Menos bet e mais futebol"
A pergunta que o vídeo não responde é por que o padrão se repete. A resposta começa em quem manda na CBF.
O lapso entre o discurso e a conduta da CBF
Enquanto o vídeo prometia mais planejamento e mais trabalho duro, uma denúncia publicada em 15 de junho apontou que o presidente da CBF, Samir Xaud, usou verba da entidade para bancar estadia de mulheres próximas a ele nos Estados Unidos, durante a permanência da seleção no país sede da Copa.
João Havelange presidiu a CBF entre 1958 e 1975, antes de comandar a FIFA por 24 anos. Décadas depois, foi exposto no mesmo esquema de propina da ISL que envolveu seu genro e sucessor na CBF, Ricardo Teixeira.
Teixeira presidiu a entidade por 23 anos. Renunciou em 2012 sob denúncia de propina da ISL, empresa de marketing esportivo, e foi banido do futebol pela FIFA em 2019, acusado de receber R$32.3 milhões em propina só nos contratos de transmissão de Libertadores, Copa América e Copa do Brasil.
José Maria Marin, seu sucessor temporário, foi preso nos Estados Unidos e condenado no escândalo internacional conhecido como Fifagate. Marco Polo Del Nero foi banido do futebol na sequência do mesmo esquema.
É essa mesma cúpula, acostumada a colocar interesse pessoal acima do futebol, que escolheu, e depois premiou, quem comanda o time em campo.
Identidade terceirizada
Carlo Ancelotti é o primeiro técnico estrangeiro a comandar o Brasil numa Copa do Mundo desde a criação do torneio, em 1930. A contratação já nasceu contestada.
Em um fórum promovido pela CBF, com Ancelotti no palco, os técnicos Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira criticaram publicamente a escolha, defendendo que a seleção deveria ser comandada por um treinador brasileiro. Renato Gaúcho e Vanderlei Luxemburgo se posicionaram no mesmo sentido.
A crítica não ficou restrita a quem falou no palco. Parte da imprensa esportiva especializada repetiu a mesma pergunta, como um país que construiu identidade futebolística global termina terceirizando o comando do próprio time.
Mesmo depois da eliminação mais precoce desde 1990, com os piores números de posse de bola e de distância percorrida entre todas as 48 seleções da Copa, a CBF aprovou o reajuste salarial de 20% pra Ancelotti. Seu salário subiu de R$5 milhões para R$6 milhões, totalizando R$72 milhões por ano, com projeção de R$288 milhões até 2030.
Nenhum clube brasileiro tem histórico de aumento de salário do técnico depois de uma eliminação precoce com desempenho abaixo do esperado. A tradição é oposta, vem com demissão. A CBF quebrou qualquer critério mínimo de meritocracia, justamente com o técnico que trouxe de fora.
Se dinheiro e proteção do círculo pessoal pesam mais que resultado para a CBF, não é surpresa que a mesma lógica apareça na sua relação com apostas.
A seleção das bets
A CBF costuma se defender com o argumento de que a camisa da seleção não estampa nenhuma casa de aposta. Mas um terço dos jogadores convocados joga em clubes patrocinados por bets. A imprensa esportiva nomeou o fenômeno de "seleção das bets". Cada aparição pública reativa essa associação.
Esse não é um problema recente. Sete jogadores do Sport Club Jaraguá foram suspensos preventivamente essa semana, por suspeita de manipulação de resultado numa goleada de 8 x 1, com volume de apostas fora do padrão identificado pela empresa Sportradar.
O episódio se soma a uma lista que já inclui a operação Penalidade Máxima II, investigação do Ministério Público de Goiás sobre manipulação de partidas do Brasileirão de 2022 e de estaduais, e um levantamento anterior que apontou seis jogos sob suspeita na mesma edição do campeonato.
Esse padrão de escândalos na CBF não fica restrito às bets. Ela vende a própria história em troca de qualquer contrato que apareça.
Reputação à venda
A CBF chegou a fechar contrato com 12 patrocinadores na seleção brasileira às vésperas da Copa, somando Nike, Itaú, Vivo, Ambev, Cimed, Sadia, Azul, Uber, Volkswagen, iFood, Google e Amazon.
A Nike renovou contrato até 2038, o maior e mais longo da história da CBF. Uma marca renomada que aposta 12 anos de exposição direta em uma instituição que hoje discute manipulação de resultado e desvio de verba. Uma decisão clara sobre o que pesa mais entre credibilidade e faturamento.
Cada novo patrocinador, isoladamente, parece uma decisão defensável. 12 ao mesmo tempo, numa instituição sob suspeita recorrente, é outra conversa. A CBF está diluindo sua marca e autoridade a cada contrato assinado, e nenhum desses parceiros parece estar medindo esse custo.
Jogador fominha
Da mesma forma, o jogador profissional hoje em dia precisa cuidar da sua imagem. É uma marca pessoal, com patrocínio e valor de mercado próprios.
Comentários sobre falta de entrega em campo, sobre jogador que "não veste a camisa" como antes, não são só cobrança emocional de torcedor saudosista. São sinal de erosão de marca pessoal.
Um jogador que associa a própria imagem às bets, ou que demonstra queda de rendimento num momento de exposição máxima como a Copa, paga o preço nas negociações futuras, não só na crítica do domingo.
A seleção de hoje é formada por jogadores que constroem sua imagem em paralelo à carreira esportiva. Isso é normal hoje em dia. O problema é quando o contrato de publicidade vale mais do que o resultado em campo. Quando a camisa vira palco de exposição a vexames e não a orgulho com as conquistas.
Nem sempre foi assim.
Muito discurso, pouco futebol
Durante décadas a camisa amarela foi um símbolo de orgulho nacional que atravessava classes sociais e disputa política. Não pertencia ao patrocinador. Era propriedade coletiva.
O Brasil não vence uma seleção europeia em fase eliminatória de Copa do Mundo há seis edições consecutivas.
Essa distância não é só estatística. É o lapso entre o que a seleção prometeu ser e o que vem entregando, edição após edição, na base de muito discurso e pouco futebol.
A coreografia depois do gol, o penteado novo ou o namoro do jogador viram assunto mais comentado do que a performance em campo.
O problema vai além da CBF. No marketplace oficial da FIFA, que pela primeira vez na história das copas adotou precificação dinâmica, um ingresso para a final chegou a ser anunciado por R$11 milhões, com a FIFA embolsando 15% de taxa sobre a venda, sem impor teto de preço.
Enquanto isso, o torcedor comum, que só quer acompanhar a própria seleção, já desembolsa quase R$36 mil em um ingresso oficial. O mesmo esporte virou ativo de especulação, e a FIFA lucra nas duas pontas.
Não é mais um jogo com regras de mercado ruins. É uma estrutura de poder que trata o torcedor como o último elo da cadeia.
Reputação não se resolve com vídeo
Juntas, essas camadas mostram o mesmo padrão em pontos diferentes da crise. De Havelange a Xaud, a corrupção na CBF é um sistema que se repete há décadas.
A escolha por um comando técnico estrangeiro, contestada, fracassada e ainda assim promovida, expõe um critério interno que recompensa a permanência e não a entrega, mesmo diante do próprio fracasso.
As bets, mesmo fora da camisa oficial, emprestam sua péssima reputação a um ecossistema que nenhuma marca consegue controlar sozinha, assim como os escândalos de manipulação de resultados.
Reputação não se resolve com vídeo. Se resolve com resultado, transparência e menos escândalo. Até que isso aconteça, "o nosso maior adversário somos nós", como já disse Bruno Guimarães em 2025, meio-campo da seleção brasileira.
